O 18º Fórum Latino-Americano de Smart Grid, realizado nos dias 6 e 7 de outubro de 2026 em São Paulo, discutiu em oito painéis como preparar a distribuição de energia para 2030. Os temas centrais foram a abertura do mercado de baixa tensão, a medição inteligente, a flexibilidade da rede, a resiliência a eventos climáticos, o financiamento da digitalização e o uso de inteligência artificial. O fio que ligou todos os debates foi o consumidor, que passou a ser tratado como peça decisiva da transformação da rede, e não apenas como pagador da tarifa.
O que é o Smart Grid Fórum
O Fórum Latino-Americano de Smart Grid é um dos principais encontros sobre redes inteligentes da América Latina, coordenado por Cyro Vicente Boccuzzi, presidente da ECOee. A edição de 2026, a 18ª, aconteceu no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo, e reuniu governo, regulador, operadores, distribuidoras, bancos de fomento e fornecedores de tecnologia do Brasil, da Índia, do Canadá, do Chile, da Colômbia, do México e da Europa. A programação completa está no site oficial do fórum.
A Logoon acompanhou os dois dias e participou do Painel 7, com a sócia Fernanda Granato ao lado do executivo Marcos Madureira.
Dia 1: transição do setor, consumidor e flexibilidade
O setor em transição
O painel de abertura reuniu MME, ANEEL, CCEE, Anatel, ONS, EPE, Adelat e FASE para discutir como os novos contratos de concessão, a abertura do mercado, a digitalização regulatória e a resiliência estão redefinindo o papel da distribuidora. A mensagem comum foi de preparação: a abertura do mercado de baixa tensão vem aí, e regulação, sistemas e pessoas precisam estar prontos antes dela.
Medição inteligente e tarifas
O segundo painel tratou da medição inteligente como infraestrutura básica para o consumidor ativo. Dois pontos se destacaram. O primeiro é que trocar o medidor não gera valor sozinho: sem integração de sistemas, o consumidor pode até desconfiar da troca. O segundo é que a tarifa branca segue com adesão muito baixa porque é pouco conhecida, o que mostra que sinal de preço sem comunicação não muda comportamento. Também se ouviu um alerta que serve para todo o setor: dados de má qualidade custam caro, porque a inteligência artificial não corrige o dado ruim, ela amplifica o problema.
Mercado aberto e Open Energy
No terceiro painel, comercializadoras, consultorias e fornecedores de sistemas discutiram a abertura do mercado de baixa tensão. Hoje o mercado livre tem dezenas de milhares de agentes. Com a abertura, serão milhões de clientes, o que exige processos digitais, custo baixo de atendimento e jornadas sem burocracia. As distribuidoras terão de disponibilizar dezenas de campos de informação sobre cada cliente, com prova de consentimento e nível de serviço definido. A experiência da Índia com energia P2P mostrou que regulamentar não basta quando os sistemas de faturamento não se abrem.
Flexibilidade como infraestrutura
O quarto painel tratou baterias, resposta da demanda, usinas virtuais e curtailment como uma nova classe de infraestrutura. O diagnóstico foi direto: o Brasil tem energia renovável no lugar e na hora errados, e parte da geração solar vem sendo cortada por restrição da rede. Sem sinal de preço e sem sinal locacional, ninguém investe em bateria ou desloca consumo. Um piloto com consumidores residenciais mostrou que a maioria quer modular a carga, mas precisa de informação em tempo real e de comunicação simples, e a equipe acabou usando o WhatsApp para falar com os participantes.
Dia 2: inteligência operacional, resiliência e financiamento
IA, ADMS e cibersegurança na operação
O quinto painel discutiu a arquitetura digital para operar milhões de medidores, sensores e recursos distribuídos. Conectividade confiável, interoperabilidade e qualidade de dados apareceram como pré-requisitos para qualquer uso sério de IA. Também se discutiu a gestão de mudança dentro das distribuidoras, porque sistemas novos não funcionam sem operadores que confiem neles.
Resiliência a eventos extremos
O sexto painel tratou de como transformar resiliência em investimento reconhecido. Os participantes defenderam que enterrar toda a rede não é viável, que os indicadores de continuidade atuais não representam bem os eventos climáticos e que a gestão das árvores urbanas precisa de responsabilidade definida entre municípios e distribuidoras. Foi citada a consulta pública da ANEEL sobre resiliência, aberta até 12 de outubro, e a criação de um indicador específico para eventos extremos.
Como financiar a transformação digital da rede
O Painel 7, moderado por Ricardo Vidinich, reuniu BNDES, ANEEL, Global Smart Energy Federation, Base Foundation, o executivo Marcos Madureira e Fernanda Granato, da Logoon e da FUMSOFT. A pergunta central foi quem paga a conta.
O BNDES apresentou as condições do Fundo Clima e do BNDES Mais Inovação para projetos de digitalização, smart grid e resiliência. O canadense Ravi Seethapathy alertou que a digitalização vai empurrar a regulação para o desempenho e que poucas distribuidoras no mundo conseguem explicar como o cliente se beneficia diretamente da medição inteligente. A Base Foundation apresentou resultados de um piloto de flexibilidade e fundos abertos para projetos na região. A ANEEL resumiu a lógica regulatória em uma frase: não se paga por desempenho sem medir esse desempenho.
Madureira e Fernanda trouxeram outro ângulo: o risco de perder o conhecimento das empresas quando a inteligência artificial é tratada apenas como corte de custo. Madureira contou um projeto de flexibilidade feito em Minas Gerais há cerca de 30 anos, com desconto para quem não usasse o chuveiro elétrico no horário de ponta. O projeto pode ser encontrado na internet, mas os dados dele não, porque ficaram na memória de poucas pessoas. Fernanda defendeu olhar a IA também pelo que ela torna obsoleto, pelo que multiplica em produtividade e pelo que permite criar, lembrou que o consumidor em breve terá agentes pessoais negociando com a concessionária e propôs usar a IA para trazer o consumidor para perto, com comunicação personalizada.
Agenda até 2030
O painel de encerramento, com CPFL, EDP Espírito Santo, Copel e Abradee, discutiu as decisões que não podem esperar. Entre elas, a sustentabilidade do modelo tarifário diante do peso dos subsídios, a necessidade de trocar subsídio por investimento, o crescimento da carga de data centers, que exige potência e não só energia, e a orquestração dos sistemas de medição inteligente para gerar valor. A presidente da Abradee, Patrícia Audi, apontou como primeiro passo aprender a falar com o consumidor, numa linguagem que deixe de ser regulatória.
Os cinco recados do Smart Grid Fórum 2026
1. O consumidor decide o sucesso da transformação. Flexibilidade, tarifa horária e abertura de mercado dependem de adesão, e adesão depende de entendimento.
2. Comunicação virou competência técnica. O setor reconheceu em palco que precisa trocar a linguagem regulatória por uma que o consumidor entenda.
3. Investimento digital vai precisar provar benefício. A regulação caminha para remunerar desempenho medido.
4. Dado de qualidade vem antes da IA. Sem dado confiável, a inteligência artificial amplifica erros.
5. Conhecimento das pessoas é ativo. Equipamentos se compram. O repertório acumulado pelos profissionais é o que diferencia uma empresa da outra.
O que isso significa para quem vende para o setor elétrico
Para fornecedores de tecnologia, integradores e prestadores de serviço do setor, o fórum deixou claro que a disputa vai além da especificação técnica. Distribuidoras precisarão justificar cada escolha digital ao regulador e ao consumidor, e vão preferir parceiros que ajudem a explicar valor. Ao mesmo tempo, a pesquisa de fornecedores tende a passar por agentes de IA que comparam opções, o que torna conteúdo técnico consistente e posicionamento claro ainda mais importantes.
Na Logoon, trabalhamos com marketing de ponta a ponta para empresas de energia e tecnologia com vendas complexas, do relacionamento com quem decide à presença em eventos setoriais. O que vimos em São Paulo reforça o que defendemos: evento é o começo da conversa, e o que transforma presença em negócio é a consistência do relacionamento antes e depois dele.
Perguntas frequentes
Quando e onde aconteceu o Smart Grid Fórum 2026?
O 18º Fórum Latino-Americano de Smart Grid aconteceu nos dias 6 e 7 de outubro de 2026, no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo.
Quais foram os principais temas do Smart Grid Fórum 2026?
Abertura do mercado de baixa tensão, medição inteligente e tarifas, Open Energy, flexibilidade e armazenamento, inteligência artificial na operação, resiliência a eventos climáticos, financiamento da transformação digital da rede e a agenda das distribuidoras até 2030.
Como financiar a transformação digital da rede elétrica?
No Painel 7, os participantes apontaram linhas de crédito de fomento, como o Fundo Clima e o BNDES Mais Inovação, fundos internacionais para projetos de flexibilidade e a remuneração por desempenho na regulação. O consenso foi de que cada investimento precisa demonstrar o benefício que gera para o consumidor.
Qual o papel da inteligência artificial no setor elétrico, segundo o fórum?
A IA apareceu na operação da rede, na manutenção preditiva, no despacho de equipes e na comunicação com o consumidor. Os painelistas alertaram que ela depende de dados de qualidade e que as empresas precisam preservar o conhecimento dos profissionais experientes ao adotá-la.
Onde encontrar as apresentações do Smart Grid Fórum 2026?
A organização informou que as apresentações autorizadas seriam disponibilizadas no site oficial do fórum, smartgrid.com.br, na semana seguinte ao evento.
Sobre a autora e fontes
Texto de Fernanda Granato, cofundadora da Logoon e diretora da FUMSOFT, palestrante do Painel 7 do Smart Grid Fórum 2026. Fontes: programa oficial do 18º Fórum Latino-Americano de Smart Grid (smartgrid.com.br) e anotações e gravações da equipe da Logoon durante os dois dias do evento.
Sua empresa atua no setor elétrico e quer transformar presença em evento em relacionamento com quem decide? A equipe da Logoon pode ajudar a estruturar o próximo passo.
➜ Fale conosco



